Datsue-ba
A velha que cobra a portagem no rio dos mortos
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Japão(Japão)O sutra japonês dos Dez Reis
Datsue-ba não aparece no Konjaku Monogatari-shū nem no Nihon Ryōiki: o seu texto é o Bussetsu Jizō Bosatsu Hosshin Innen Jūō-kyō, um sutra apócrifo composto no Japão em finais do século XII sobre o modelo do sutra chinês dos Dez Reis. Aí, na sala do segundo rei, Shokō-ō, a passagem diz que perante o tribunal se ergue uma grande árvore chamada Eryōju, e que à sua sombra habitam dois demónios: um chama-se Datsue-ba e o outro Keneō. Ela é um desses dois, e a passagem que vigia é o rio Sōzu, o que se conhece como Sanzu no Kawa. Meio século antes, o Hokke Genki (1043) já trazia uma anciã demónio com o mesmo ofício, de modo que a figura é anterior ao texto que lhe dá nome. Yanagita Kunio leu todo o seu culto como uma devoção muito mais velha, a da uba-gami ou avó ancestral, absorvida pela geografia budista do além.
As seis moedas e a árvore das roupas
Os mortos são enterrados com seis moedas, o rokumonsen, para pagar a passagem do rio. Quem as leva, atravessa. Quem não, é despojado por Datsue-ba, e Keneō pendura a peça nos ramos do Eryōju: o ramo verga conforme o peso das faltas de quem a vestiu, e essa medida, não a opinião da velha, é o que chega ao tribunal. Lê-se também o modo de atravessar: pela ponte os que devem pouco, pelo vau os intermédios, pela corrente funda os restantes. Lafcadio Hearn, que recolheu em 1894 a versão contada em Izumo, fixa a portagem em três rin e anota que a anciã vive nessa margem com o marido. E há uma variante mais dura, que as fontes não escondem: a quem chega sem roupa que lhe tirar, arranca-se-lhe a pele.
O Sai no Kawara, e a avó do algodão
Na margem pedregosa do Sai no Kawara as crianças mortas empilham torres de pedra pelos seus pais, e as torres desabam uma e outra vez. Quem as derruba não é ela: são os oni, e quem acode é Jizō, que esconde os pequenos nas mangas e os passa para o outro lado. A confusão é antiga e compreende-se, porque o vau da velha e a margem das crianças estão no mesmo trânsito, mas os textos repartem os papéis e convém não os juntar. Há além disso uma camada muito mais recente que merece datar-se. Entre 1848 e 1854 a imagem de Datsue-ba do templo Shōjuin, em Edo, tornou-se objeto de devoção popular: pedia-se-lhe a cura da tosse e, sarado o doente, oferecia-se-lhe algodão, até a estátua ficar coberta e valer-lhe o nome de «a avó do algodão». Utagawa Kuniyoshi desenhou-a então de pele azul e manto amarelo, mais condescendente do que temível. Dessa mesma época é a ideia de que é esposa do rei Enma, que nenhum sutra diz.
Relíquias
Simbologia
Elemento
Água
Número
10
Cor
Cinza
Animais
Corvo
Sigilos:
Tracos
Poderes
Fraquezas
Comportamento
Resistencias
Relacoes com outros seres
No Atlas
Viaja pelo mundo de origem dos seres e o cosmos das suas dimensões.
Mitologias
O folclore japonês abrange tradições orais, mitos, lendas e criaturas sobrenaturais como yōkai e kami, compiladas em textos ilustrados do período Edo por Toriyama Sekien em obras como Gazu Hyakki Yagyō e Konjaku Hyakki Shūi, refletindo crenças animistas xintoístas, temores ecológicos ante inundações e secas, e respeito pela natureza em rios, lagos e arrozais de regiões como Shiga, Osaka e Kyoto.
Fontes
Vislumbres do Japão Desconhecido
Lafcadio Hearn · 1894
Livro de Lafcadio Hearn publicado em 1894 sobre os seus anos em Izumo. O seu décimo quinto capítulo, intitulado Kitsune, é a descrição mais extensa em domínio público do culto e das crenças sobre raposas: a distinção entre raposas de Inari e raposas selvagens, o fogo de raposa e os casos de possessão recolhidos nas aldeias.
Sutra dos Dez Reis de Jizō
Anónimo (apócrifo japonês) · finais do séc. XII
Sutra apócrifo composto no Japão em finais do século XII sobre o modelo do texto chinês dos Dez Reis. É o primeiro texto que nomeia Datsue-ba: na sala do segundo rei, Shokō-ō, diz que perante o tribunal se ergue uma grande árvore chamada Eryōju e que à sua sombra habitam dois demónios, um chamado Datsue-ba e outro Keneō.
Perguntas frequentes
Como mede Datsue-ba as culpas do morto?
Não é ela quem as mede. Arranca a roupa a quem não leva as seis moedas da portagem e passa-a a Keneō, que a pendura na árvore Eryōju: o ramo verga conforme o peso das faltas, e esse é o dado que chega ao tribunal dos Dez Reis. O seu ofício é cobrar e despir, não julgar.
É ela quem castiga as crianças do Sai no Kawara?
Não. As crianças empilham pedras e são os oni que derrubam as torres; Jizō acode, esconde-as nas mangas e passa-as para o outro lado. Datsue-ba partilha a paisagem dessa cena porque o vau e a margem pedregosa estão no mesmo trânsito, mas as fontes repartem os papéis e não a põem a mandar.
Porque se lhe oferecia algodão no Edo do século XIX?
Entre 1848 e 1854 a sua imagem do templo Shōjuin tornou-se objeto de devoção popular contra a tosse: quem sarava deixava algodão, e a estátua acabou tão coberta que lhe chamaram «a avó do algodão». É uma camada do século XIX e convém dizê-lo, porque o sutra medieval não a conhece como curandeira de nada.
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