Licáon
Licáon, o rei da Arcádia que serviu carne humana
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Europa
Grécia Antiga(Grécia)🔄 Linha de Transformação (Fase 1 de 2)
Filho de Pelasgo, rei da cidade mais antiga
Licáon reinou na Arcádia como filho de Pelasgo, que a tradição arcádia tinha por primeiro homem, e gerou cinquenta filhos de muitas mulheres. Apolodoro enumera-os um a um, e a lista é mais interessante do que parece: entre eles estão Mantineu, Clítor, Estínfalo e Orcómeno, que são os nomes de quatro cidades arcádias. Os filhos de Licáon não são um número de adorno, mas a genealogia com que a Arcádia explicava de onde tinham saído os seus próprios povos.
Ao pai atribui-se a fundação de Licosura, na encosta do monte Liceu, e Pausânias chama-lhe a cidade mais antiga que o sol viu. Atribui-se-lhe também ter instituído ali o culto de Zeus Liceu, e esse culto arrastou sempre fama de sacrifícios humanos: em época romana continuava de pé, e Platão menciona-o ao falar do homem que prova as entranhas e se torna lobo.
A figura do rei não é, portanto, a de um tirano qualquer. Licáon é ao mesmo tempo o fundador da cidade mais velha, o instituidor de um culto e o homem que o profanou, e o mito não separa as três coisas: o altar que mancha é o que ele próprio ergueu.
Três versões do mesmo crime
As fontes antigas não contam o mesmo, e a diferença importa porque dela depende até quem foi a vítima.
Ovídio, no início das Metamorfoses, faz Júpiter descer disfarçado de homem. As pessoas reconhecem-no como deus e rezam; Licáon troça, decide comprová-lo matando-o enquanto dorme e, antes disso, serve-lhe a carne de um refém molosso que tinha em seu poder.
Apolodoro não fala de nenhum hóspede disfarçado: são os cinquenta filhos que, para pôr Zeus à prova, misturam as entranhas de um menino do país com as das vítimas do sacrifício.
Pausânias não conta banquete nenhum. Na sua versão Licáon leva um recém-nascido ao altar de Zeus Liceu e derrama o seu sangue sobre a pedra, e isso basta.
A ficha antiga deste ser dizia que a vítima foi, «segundo a versão mais divulgada», o seu próprio filho Níctimo. Não o é em nenhuma das três: em Ovídio é o refém molosso, em Pausânias um recém-nascido e em Apolodoro um menino anónimo do país. Níctimo aparece, e muito, mas no papel contrário.
A mesa virada
Zeus vira a mesa. Apolodoro acrescenta o pormenor que faz do mito uma etiologia: o lugar onde a virou continua a chamar-se Trapezunte, que em grego quer dizer «a mesa». Depois fulmina com o raio Licáon e os seus cinquenta filhos, e só um se salva, Níctimo, o mais novo, porque a Terra foi bastante rápida para agarrar a mão direita de Zeus e aplacá-lo.
Convém dizê-lo com todas as letras, porque é o que a ficha trazia ao contrário: em Apolodoro, Níctimo é o sobrevivente, não o prato. E em Apolodoro, além disso, Licáon não se converte em lobo. Morre fulminado como os filhos. O lobo é de Ovídio e de Pausânias, não dele.
Em Ovídio o raio derruba o palácio e o rei foge para o campo, e ali se transforma. Em Pausânias não há fuga nem raio: a transformação é imediata, no próprio altar, assim que o sangue do menino cai sobre a pedra. Três relatos, três castigos distintos, e o hábito de os contar como se fossem um só é o que produziu quase todos os erros que esta ficha teve de desfazer. O que se segue, já como besta, conta-se na ficha da sua forma lobuna.
Relíquias
Simbologia
Elemento
Lobo
Número
1
Cor
Cinza
Animais
Lobo
Sigilos:
Tracos
Poderes
Fraquezas
Comportamento
Resistencias
Relacoes com outros seres
Rival de
No Atlas
Viaja pelo mundo de origem dos seres e o cosmos das suas dimensões.
Mitologias
A mitologia grega desenvolveu-se na Grécia Antiga a partir da Idade do Bronze tardia e alcançou sua forma mais elaborada durante os períodos arcaico e clássico, entre os séculos VIII e IV a.C. Surgiu entre os povos helênicos que habitavam a península grega, as ilhas do Egeu e as costas da Ásia Menor, e transmitiu-se principalmente por meio da poesia oral de Homero e Hesíodo, bem como de tradições locais recolhidas em santuários e festivais. Sua cosmovisão apresenta um universo ordenado por uma hierarquia de divindades que intervêm nos assuntos humanos e naturais, com o Olimpo como morada dos deuses principais e o Hades como destino dos defuntos. As divindades centrais incluem os doze olímpicos, encabeçados por Zeus, deus do céu e soberano, junto com Hera, Poseidon, Atena, Apolo, Ártemis, Afrodite, Ares, Hefesto, Hermes, Deméter e Dionísio. Antes deles, os titãs, entre os quais se destacam Cronos e Réia, governaram o cosmos até serem depostos pelos olímpicos na Titanomaquia. Outras entidades importantes são as musas, as ninfas, os ciclopes e as moiras, que encarnam forças cósmicas e destinos. Esta tradição exerceu uma influência duradoura na literatura, na arte e no pensamento de Roma, no Renascimento europeu e na cultura ocidental posterior, fornecendo motivos, personagens e estruturas narrativas que perduraram na filosofia, na astronomia e nas artes até a atualidade.
Fontes
Metamorfoses
Ovídio · 8
Obra poética de Públio Ovídio Nasão que narra mitos de transformações, incluindo referências a Hipólito e Virbius.
Biblioteca
Apolodoro · 100
Compêndio mitológico atribuído a Apolodoro que resume lendas gregas.
Descrição da Grécia de Pausanias
Pausânias · ca. 150 d. C.
A «Descrição da Grécia» de Pausânias (século II), guia geográfico e religioso do mundo grego. Percorre santuários, monumentos e cultos locais, e conserva mitos, heróis e divindades que de outro modo se teriam perdido.
Perguntas frequentes
Quem serviu Licáon no banquete?
Depende da fonte, e em nenhuma é o seu filho Níctimo. Ovídio diz que foi um refém molosso que tinha em seu poder; Apolodoro, um menino anónimo do país, servido pelos cinquenta filhos; Pausânias não conta banquete nenhum e fala de um recém-nascido degolado no altar. Níctimo é, em Apolodoro, o único filho que sobrevive ao raio.
Licáon converte-se em lobo em todas as fontes?
Não. Em Apolodoro não há lobo: Zeus fulmina-o com o raio juntamente com os cinquenta filhos, e acaba aí. O lobo é de Ovídio, onde o rei foge para o campo depois de arder o palácio, e de Pausânias, onde a mudança ocorre no próprio altar. Atribuir a transformação a Apolodoro é um erro corrente que esta ficha teve de corrigir.
Porque se chama Trapezunte aquele lugar?
Porque ali, segundo Apolodoro, Zeus virou a mesa do banquete, e Trapezunte significa em grego «a mesa». É uma etiologia, isto é, um mito que existe para explicar um topónimo que já existia. O pormenor importa porque mostra para que servia o relato na Arcádia: não só para condenar o rei, mas para deixar a marca do castigo no mapa.
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