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Jacques Roulet

Jacques Roulet, o lobisomem de Angers que Paris declarou demente

Curadoria deCriado emAtualizado em

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EuropaEuropa
FrançaAngers(França)
👑
Classificação
Lobisomem de AngersNv. 65
📜
Hierarquia
Licantropos acusadosNv. 15

Origens Históricas de Jacques Roulet

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Jacques Roulet era um mendigo de Caude, uma aldeia do Anjou, no oeste de França, e não da Bretanha, como às vezes se repete. Vivia da esmola percorrendo os caminhos com o irmão Jean e o primo Julien, os três esfarrapados, meio nus e com fama de simplórios. Numa França arrasada pelas guerras de religião, homens assim eram ao mesmo tempo objeto de caridade e de suspeita: davam-lhes pão e culpavam-nos do que faltasse.

Quanto à origem dos seus poderes, Roulet não apontou nenhum desconhecido numa encruzilhada. Disse que o unguento lho tinham dado os próprios pais anos antes e que com ele podia converter-se em lobo. É uma confissão sem diabo pelo meio, ao menos no início: um remédio caseiro, herdado na família, que na boca de um tribunal acabaria convertido noutra coisa.

Processo de Transformação e Crimes

Roulet descreveu a transformação como um processo doloroso que inicia untando todo o corpo com o ungüento diabólico, provocando ardor intenso seguido de deformação corporal gradual: crescimento de pelo áspero, alongamento de membros em garras, e rosto se convertendo em focinho lobuno pontiagudo com olhos brilhantes, durando horas até se transformar em lobo selvagem que ronda florestas noturnas em busca de presa humana, impulsionado por fome bestial irresistível. Nesse estado, afirmou cometer crimes atrozes como despedaçar crianças inocentes e devorar sua carne crua, especialmente em áreas rurais ao redor de Angers, onde testemunhas relataram ataques de um lobo misterioso coincidente com suas confissões, refletindo o terror coletivo ante monstros em uma era de pragas e superstições.

O Julgamento e as Confissões

Em agosto de 1598, uns homens que perseguiam um lobo por um matagal perto de Caude depararam-se com Jacques Roulet acocorado, meio nu, com as roupas em farrapos, as mãos ensanguentadas e restos de carne humana debaixo das unhas. A poucos passos jazia o corpo despedaçado de um rapaz de quinze anos. Não foi preciso procurar mais: prenderam-no ali mesmo.

Perante o tribunal de Angers confessou tudo quanto lhe perguntaram. Que se untava com o unguento e se tornava lobo. Que tinha matado e comido crianças. Que o irmão e o primo corriam com ele. Quando os foram buscar, Jean e Julien estavam sossegados em casa e não havia contra eles nada além da palavra de Jacques. O tribunal condenou-o à morte por bruxaria e licantropia.

E então o caso deu uma volta. Roulet apelou, e o Parlamento de Paris reviu a sentença e anulou-a. Os magistrados raciocinaram que aquele homem não estava no seu juízo e que as suas declarações tinham sido obtidas sob coação, de modo que não provavam um pacto mas uma cabeça perdida. Comutaram a pena para dois anos de reclusão no manicómio de Saint-Germain-des-Prés, com instrução religiosa. Nem fogueira, nem açoites, nem prisão perpétua: dois anos e um diagnóstico.

Legado Cultural e Histórico

O caso de Roulet cita-se uma e outra vez porque marca um ponto de viragem. É um dos primeiros em que um tribunal superior francês se recusa a ler uma confissão de licantropia como prova de bruxaria e decide lê-la como sintoma. Essa maneira de olhar abriria caminho ao longo do século XVII até acabar com os processos de lobisomem em França, e o acórdão de Paris de 1598 figura entre os seus antecedentes mais citados.

Convém advertir de um erro que circula com este caso: atribuir o seu relato a um 'Discours et histoires des spectres' de um tal Pierre de Rostegny. O livro existe, é de 1605, mas o seu autor é Pierre Le Loyer; 'Rostegny' não corresponde a ninguém e parece uma confusão com Pierre de Rosteguy de Lancre, o magistrado que de facto escreveu sobre licantropos franceses. Com figuras de que mal restam uns fólios judiciais, esse tipo de deslizes copia-se de um livro para outro até acabar por passar por dado.

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Também conhecido como

"O Lobo de Angers"

Relíquias

Simbologia

🔥

Elemento

Noite e Lua

🔢

Número

13 (julgamento 1598)

🎨

Cor

Cinza Lobo

🦁

Animais

Lobo

Sigilos:

UnguentoUnhas ensanguentadasFarraposMatagal de Caude

Tracos

Poderes

💔

Fraquezas

🧠

Comportamento

🛡️

Resistencias

Relacoes com outros seres

No Atlas

Viaja pelo mundo de origem dos seres e o cosmos das suas dimensões.

Mitologias

📅 Desde os primeiros séculos cristãos até o contemporâneo (séculos I-XXI)

Estudo sistemático de demônios, anjos caídos e entidades espirituais malignas na tradição cristã, abrangendo classificações hierárquicas em grimórios como o Lemegeton e a Pseudomonarchia Daemonum, práticas de exorcismo e invocação em textos medievais e renascentistas, referências bíblicas ao príncipe das trevas e legiões infernais, influências na teologia escolástica, a Inquisição e o ocultismo posterior, com práticas para discernir espíritos, combater possessões e restaurar o equilíbrio divino contra as forças do mal.

Fontes

📚

O Livro dos Lobisomens

Sabine Baring-Gould · 1865

Livro clássico de Sabine Baring-Gould (1865) que detalha casos históricos de licantropia na Europa, incluindo os detalhes do caso Gilles Garnier como um dos exemplos mais proeminentes de transformação demoníaca e crimes no século XVI, baseado em registros originais do julgamento.

📚

Tableau de l'inconstance des mauvais anges et démons

Pierre de Lancre · 1612

Tratado do magistrado Pierre de Lancre, que visitou Jean Grenier na sua reclusão de Bordéus em 1610 e deixou por escrito o que encontrou.

📚

Werwolves

Elliott O'Donnell · 1914

Recolha de casos e tradições de licantropia por toda a Europa, com capítulos dedicados aos processos franceses e aos do Báltico.

Perguntas frequentes

De onde era Jacques Roulet e quem lhe deu o unguento?

Era de Caude, uma aldeia do Anjou, e não da Bretanha, como muitas vezes se lê. E não apontou nenhum desconhecido: disse que o unguento lho tinham dado os próprios pais anos antes. Esse pormenor é o que torna a sua confissão distinta das outras, porque nela não há pacto nem encontro noturno, mas um remédio de família que o tribunal reinterpretou como bruxaria.

Que características físicas Jacques Roulet descreveu durante seu processo de transformação em lobo?

Roulet descreveu um processo doloroso iniciado pela aplicação do ungüento diabólico. O corpo sofria ardor intenso, crescimento de pelo áspero, alongamento de membros em garras e transformação do rosto em focinho lobuno com olhos brilhantes. A metamorfose durava horas até completar a forma de lobo selvagem.

O que decidiu o Parlamento de Paris sobre a sua condenação à morte?

Anulou-a. Os magistrados consideraram que Roulet não estava no seu perfeito juízo e que as suas declarações tinham sido obtidas sob coação, de modo que não provavam pacto algum. Comutaram a pena por dois anos de reclusão no manicómio de Saint-Germain-des-Prés com instrução religiosa. Não houve açoites nem prisão perpétua: o tribunal tratou o assunto como doença e não como crime de bruxaria.

Por que importa o caso de Roulet na história da licantropia?

Porque é dos primeiros em que um tribunal superior francês lê uma confissão de lobisomem como sintoma e não como prova de pacto diabólico. Essa mudança de critério impôs-se ao longo do século XVII e acabou por encerrar os processos de licantropia em França. O caso pesa pelo que decidiu o tribunal de recurso, e não pelo que confessou o acusado.

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Última atualização: 20 de ago. de 2026